Entrevista com Soninha Francine, ex VJ da MTV e ex vereadora pelo PT | Politicos Do Brazil
Entrevista com Soninha Francine, ex VJ da MTV e ex vereadora pelo PT
Por admin
05/12/2015

Depois de muito tentar, finalmente conseguimos uma entrevista – via e-mail – com uma ex vereadora pelo PT.

Muitos devem conhece-la. Antes de entrar “definitivamente” para a política, ela trabalhou na MTV como VJ por algum tempo.

Seu nome “original” é Sonia Francine Gaspar Marmo, mas todos (ou grande maioria) o conhecem pelo nome que a tornou famosa. Ela atende por Soninha Francine.

Ok, é verdade que ela está meio sumida dos holofotes, mas é uma figura importante politicamente falando, ainda mais para os jovens, já que colecionou muitos fãs dos seus tempos de MTV.

Depois de sair da MTV com relativo sucesso, Soninha começou a carreira política de forma mais firme, pois como poderemos ver, ela diz que sempre esteve (?) na política.

Começou no PT acreditando nas ladainhas do partido, depois foi para o PPS onde está desde 2007. Ela mesmo explica na entrevista porque saiu de um e foi para o outro. É interessante essa parte.

Soninha também deu expediente como subprefeita na Lapa, capitaneado por seu desafeto (pelo menos nos debates televisivos) Kassab, ex prefeito de SP. Coisas da política, não é mesmo? Hoje você critica e amanhã pode precisar da pessoa… faz parte.

Mandamos a ex vereadora um total de 29 perguntas. Ela respondeu 24. Sinceramente, achamos que ela nem fosse responder, então consideramos o numero de respostas bem satisfatório.

É preciso dizer aqui que tentamos entrevista com outros políticos, como Eduardo Jorge, Levy Fidelix, Luciana Genro, Maria do Rosário e outros, mas nenhum deles nos respondeu. Portanto, ponto para Soninha Francine.

Para o êxito dessa entrevista, contamos com a ajuda de Lylian Concellos. Ela foi assessora de Soninha e hoje é sua amiga. Muito obrigado por ter feito essa ponte, esse elo de ligação.

Soninha diz que vai concorrer novamente para vereadora em 2016. A entrevista pode servir como parâmetro para você que pensa ou não em votar nela.

Aproveitem:

1- Por que você entrou para a política?

Sempre estive na política rs. Aprendi a acompanhar em casa e no Colégio, desde o primário. Fiz política na escola, na igreja, no teatro, na televisão, jornal, em tudo quanto é lugar. Resolvi me candidatar a vereadora porque estava cansada e deprimida com os limites da atuação nessas frentes; eu queria poder mais.

2- Por que você entrou e saiu do PT e por que foi para o PPS?

Escolhi o PT logo que ele surgiu, ainda na minha adolescência. Muitas das figuras que eu admirava na luta contra a ditadura estavam reunidas ali, e me parecia uma alternativa mais radical do que o PMDB. Eu não queria apenas melhorar, queria ruptura. Saí do PT quando descobri, um pouco durante a campanha mas principalmente durante meu mandato de vereadora, que muita coisa que eu jurava que o PT não fazia… Fazia. Como usar recursos públicos em benefício próprio, mentir descaradamente para prejudicar o governo ao qual fazia oposição e aliar-se aos piores tipos. Quando concluí que os que discordavam desses métodos eram a minoria, alguns idealistas resistentes que não tinham o menor espaço, saí. Entrei no PPS porque, ao contrário dos outros que me procuraram, disse que precisava melhorar muito e eu, pela postura crítica e inconformada, era “o problema que eles precisavam ter”. Porque atitudes suas confirmaram as palavras, como o desligamento de seus dois únicos vereadores em SP porque sua conduta não refletia em nada o pensamento do partido. Porque era um partido de esquerda com uma linda história (sempre gostei dos comunistas) e que estava na oposição ao PT.

3- Por que você criticou o ex prefeito nos debates para prefeitura de SP e depois foi trabalhar com ele na subprefeitura da Lapa, que evidentemente tem ingerência do prefeito?

1) Porque ele merecia críticas 2) Porque entrei nessa vida para fazer o máximo possível pela minha cidade, e ser Subprefeita era uma maneira incrível de contribuir.

4- Atualmente, qual sua opinião do PT e do intocável Lula?

Sobre o PT, a mesma coisa que descobri em 2007, apenas com o espanto de ver que não teve limites em sua prática desonesta. Se acostumou a mentir mais, sobre si mesmo e sobre os demais; a desviar volumes monumentais de dinheiro e a fazer alianças com os piores dos piores e a qualquer preço. Mas agora o número de idealistas inconformados dentro do partido é ainda menor (e não entendo por que eles não saem!), enquanto fora do partido há defensores apaixonados que me intrigam. Como podem não enxergar o que realmente ele se tornou? Sobre o Lula: no começo, eu achava que ele tinha apenas se deixado levar pela vaidade; que era um homem com uma grande história que tinha tido a cabeça virada pelas glórias da presidência, a reputação internacional, os elogios de quem antes o detestava. Mas aos poucos ele foi relevando seu lado mais desonesto, manipulando a história do país.

5- Como você avalia os 2 mandatos do ex presidente?

Para quem votou nele a vida toda e tinha certeza de que o PT no poder ia trazer ares COMPLETAMENTE diferentes para este país, uma decepção e um desgosto. Logo de cara, colocou o Henrique Meirelles no governo, o que contrariava nossa crítica à política econômica do PSDB. Mas o Lula fez várias auto-críticas; disse que ao chegar ao governo se deu conta de vários equívocos de quando era oposição, porque “tudo é mais fácil” (fora do governo). Com o tempo, as alianças políticas foram revelando o rumo do governo – não se consegue apoio de determinados tipos sem fazer concessões nojentas (mesmo que não sejam a compra direta de votos). No fim, o governo serviu ao interesse de banqueiros, montadoras de automóveis e grandes grupos econômicos, como a JBS (Friboi); apostou no consumo com meio de os pobres serem “incluídos” – no mercado, não na sociedade plena de cidadania!; privatizou o ensino superior (aqui entram mais grupos econômicos favorecidos…); privatizou a política habitacional (idem…); não mudou a matriz energética, ao contrário, passou a glorificar o petróleo; não mudou a matriz de transportes; não trouxe avanços no meio ambiente; sacrificou as cidades, duplamente prejudicadas pela política do IPI zero para automóveis; manteve a cobertura de saneamento básico do país na mesma merda; despolitizou o país, ao transformar tudo em “luta de classes” (“nós, os amigos dos pobres” x “eles, os inimigos”) e também a se apresentar como grande benfeitor, transformando direitos em dádivas; deixou de exercer uma liderança positiva no cenário internacional ao apoiar ditaduras e regimes de total desrespeito aos Direitos Humanos; mentiu horrores sobre o Brasil que encontrou e o Brasil que deixou; criou “políticas sociais” que mantém as pessoas na dependência do governo e não emancipam ninguém. Entre outras coisas rs.

6- Pra você, o ex presidente tem alguma culpa na crise que assola nosso país? Ou ele realmente não sabe/sabia de nada? Refiro-me ao mensalão, petrolão e etc…

No começo, eu acreditava que ele realmente pudesse não saber dos métodos utilizados para obter (comprar) apoio no Congresso… Que Dirceu tinha montado um varejão de deputados. Quando se tem um assessor/ministro em quem se deposita total confiança, é aceitável que se delegue a ele todo poder sem ficar acompanhando o desdobramento. Mesmo assim, eu acreditava que ele estava errado em não saber. Não poderia ficar tão distante, alheio, ignorante de tudo. Com o tempo, tive a certeza de que ele não apenas sabia de petrolão e outros crimes como fez parte da esfera de decisão de alguns golpes monumentais contra o erário, o BNDES, os Fundos de Pensão, as estatais…

7- Como você avalia o governo Dilma até o momento? Que nota daria?

Um desastre, nota 4. Tudo bem que ela recebeu uma herança maldita – o problema é que ela fez parte também da herança, como Ministra das Minas e Energia; Chefe da Casa Civil e “mãe do PAC”, um fiasco total; e como candidata que mentiu e pactuou com a mentira do ex-presidente. Mesmo assim, ela fez coisas que ele deveria ter feito, como as concessões de aeroportos.

8- Qual sua opinião sobre o Bolsa Familia? É uma compra de votos disfarçada ou um programa essencial mesmo? Lembrando que ele foi criado pelo FHC com outra nomenclatura e não pelo PT, como o Lula gosta de frisar.

Todo programa assistencial pode ser usado como “compra de votos” – depende bastante da propaganda que é feita (por um lado, tratando o benefício como uma ajuda caridosa, não como política pública; por outro, ameaçando o beneficiário de ficar sem o auxílio caso os adversários ganhem a eleição) e da vulnerabilidade da população (quanto mais pobre e ignorante, mais dependente ela fica). No caso do Bolsa Família, as 3 coisas aconteceram: Lula se apresentou como a primeira pessoa na história a se importar com os pobres; tratou o Bolsa Família como o auxílio que “tira” as pessoas da miséria; afirmou que os opositores acabariam com o Bolsa porque não gostam de pobres. E o Bolsa Família não tira ninguém da miséria, apenas ajuda a sobreviver dentro dela. Se o fim do benefício, cujo valor aliás é irrisório nos centros urbanos, em que há milhões de miseráveis e pobres, significa uma tragédia para essas famílias depois de anos recebendo, é porque elas não deram um passo para fora da miséria em direção à autonomia e emancipação. Sem falar que o Bolsa não é “transferência de renda”, é um auxílio. A desigualdade continua imensa no país.

9- A situação da mulher brasileira melhorou? E a situação dos nossos jovens?

A situação de toda a população melhorou por um lado, com o aumento das linhas de crédito e o barateamento de alguns bens de consumo que trazem mais conforto e facilidade para as pessoas – celulares, por exemplo. Mas a violência urbana aumentou, e mulheres e jovens são sempre as maiores vítimas.

10- A população negra no nosso país é tratada com mais respeito? E os homossexuais?

Acho que com menos desrespeito, porque a sociedade em geral não tolera mais algumas grosserias que eram comuns em outros tempos (como piadas bem nojentas), porque a lei inibe e também porque hoje em dia há mais negros em espaços em que antes não “existiam”. Mas ainda há muitos idiotas que enxergam negros como pessoas “diferentes”, isto é, inferiores de algum modo. Os homossexuais também tem hoje muito mais liberdade do que há 20 ou 30 anos atrás, nem se compara. Também estão mais visíveis e, portanto, mais presentes na vida das pessoas, e quanto mais contato e proximidade, menor tende a ser o preconceito. Mas isso ainda depende muito do lugar, do meio em que a pessoa vive, classe social etc. Há ambientes em que a convivência é absolutamente indistinta, mas outros em que a discriminação ainda é forte, descambando ou não para a violência física. E as pessoas transexuais ainda vivem uma situação de exclusão que é gravíssima; são tremendamente sujeitas a todo tipo de violência (física, psíquica, institucional etc).

11- Quando você pega o relatório de violência do Brasil e nele mostra mais de 56 mil mortes/ano, você se preocupa com o numero total ou tem preocupação especifica com algum grupo, cito mulheres, jovens, negros e homossexuais?

Com o número total… Saber que há idosos assassinados em um assalto, por exemplo, me corta o coração.

12- A política no Brasil é tratada como profissão? Por que os políticos tem tantos privilégios, enquanto muitos de seus eleitores não tem nem o que comer em suas casas?

O problema não é ser tratada como profissão – consigo compreender que uma pessoa se dedique integralmente à política, portanto fazendo disso sua atividade profissional. Já o privilégio é outra história, inaceitável. Políticos tem privilégios porque tem vários instrumentos para garantir

13- O salário de um politico é alto ou você pensa como Jean Wyllys que certa feita disse ao Marcelo Tas que não considera o salário de um político alto?

O salário dos parlamentares vai de “bom” a “alto demais” – vereadores de cidades pequenas, por exemplo, que mal se reúnem na Câmara Municipal, sequer deveriam ser remunerados, uma vez que poderiam perfeitamente continuar exercendo suas outras atividades (médicos, advogados, comerciantes etc). Sobra dinheiro no Legislativo, que não precisa fazer esforço nenhum para recebê-lo, é uma vergonha. No Judiciário não é muito diferente. Já no Poder Executivo, os salários são baixíssimos comparados à responsabilidade e exigências dos cargos.

14- Direita, esquerda ou liberal, como você se define politicamente?

Esquerda – democrática, diferentemente de alguns que acreditam que um governo autoritário de esquerda é uma bênção para um povo ignorante ou alguma barbaridade parecida.

15- Dos políticos que você teve ou tem contato, por qual deles você colocaria sua mão no fogo ou são todos da mesma estirpe?

Se tivesse de escolher um só no mundo, Eduardo Jorge. Pode virá-lo do avesso – militância partidária, trajetória parlamentar, cargos executivos, o homem é de uma honestidade total, começando pela honestidade intelectual. Ele acredita e pratica o que diz. O Serra tem mil defeitos (antipático, impaciente), mas safado ele não é, muito pelo contrário – é um cara apaixonado pelo serviço público, que fica desesperado com o que não funciona. O Roberto Freire é uma pessoa muito íntegra. Recentemente conheci o Beto Albuquerque e gostei muito dele, também o Carlos Siqueira, acima de qualquer suspeita. O Gabeira é excelente. Fabio Feldman, lembra dele? Idem. Esses são apenas algumas pessoas com quem me identifico e respeito.

16- As mudanças no nosso código penal, tanto faladas por Lula em sua campanha, jamais serão feitas ou só quando acontecer algo sério com algum politico notório?

Mudanças já vêm ocorrendo; acho que essa não é uma das maiores necessidades de mudança em nossa legislação. Precisamos de um aparato de segurança mais preparado e inteligente, não de endurecimento das penas como pedem alguns (embora eu discorde da regra do “1/6 do cumprimento da pena”, por exemplo, ou de alguns indultos, mas isso é outra história).

17- Você é a favor ou contra o voto obrigatório?

Contra. As pessoas tem de votar por convicção, com interesse real no processo eleitoral, não porque são obrigadas. Com voto facultativo, o primeiro trabalho dos políticos é fazer as pessoas se interessarem pelas eleições – elas não são espectadoras cativas.

18- Qual a sua opinião sobre a maioridade penal? Faço a pergunta porque, segundo o site UOL, em 2009 você foi vitima de assalto por um “di menor” munido de faca.

“Meu” assaltante não era menor de idade… Mas minha opinião não muda em nada por causa disso: acho que o critério para uma agressão ser considerada um ato infracional ou um crime depende mais da natureza do ato do que da idade do autor. Um estupro, linchamento, latrocínio etc. são crimes, ainda que os autores tenham 16 ou 17 anos. Nem por isso deveriam cumprir pena junto com adultos, mas também não deveriam, na minha opinião, cumprir medida socioeducativa junto com garotos de 14 ou 15 anos que tenham roubado um celular ou praticado vandalismo.

19- Falando sobre presos, por que o governo disponibiliza o auxilio reclusão para quem vai preso e para a vitima desses marginais, o Estado simplesmente vira as costas?

O auxílio, na verdade, é para a família do preso, caso ele tenha tido um vínculo empregatício antes de ser condenado. A ideia é não deixá-los desassistidos, culpando-os por extensão pelo ato criminoso de um deles, e também não permitir que o crime os “adote”, como acontece muito, tornando o presidiário refém da facção, dentro e fora da cadeia. Isso acaba sendo injusto porque muitas famílias que já não tinham renda fixa (porque o pai estava desempregado, vivia de bicos etc) ficam ainda mais pobres depois da sua prisão – e porque realmente as vítimas são menos amparadas do que deveriam.

20- Falando em saúde, vi no seu twitter que você vai em hospital público. Mas no wikipedia diz que você tem um cargo no governo Alckmin. Não é contraditório usar serviço público se você “supostamente” pode pagar por um serviço privado?

Acho contraditório um funcionário público, que em alguma medida tem compromisso com a qualidade do serviço público, usar o serviço privado. Ou seja, qual a verdadeira medida do compromisso dele? Eu às vezes uso serviços privados – esses dias mesmo paguei por um ultrassom, porque não consigo marcar nem consulta com a ginecologista da UBS (veja, não é que eu marquei e vai demorar, não consegui nem marcar). Também faço terapia e tratamento psiquiátrico com profissionais particulares. Mas aí eu pago diretamente a elas; o que me recuso é ter convênio, gastar uma grana sabendo que os profissionais são muito mal remunerados.

21- Você não acha que temos muitos partidos políticos no Brasil?

O problema não é a quantidade, o problema é a intenção com que são criados. Alguns não tem uma raiz verdadeira, não representam para valer um determinado ponto-de-vista ou movimento – são criados para usufruto de um “dono”, para ter acesso a recursos do Fundo Partidário ou para vender serviços a governos diversos.

22- Você é a favor ou contra o impeachment de Dilma Rousseff? Por que?

Se eu fosse parlamentar, votaria a favor do impeachment. Os fatos são claros o suficiente para constatar que foi praticado CRIME de responsabilidade no exercício do mandato. Caberia também cassação dela e de Temer pelas demonstrações inequívocas de abuso de poder e desvio de recursos públicos na eleição que a conduziu a este segundo mandato.

23- Você vai tentar algum cargo nas eleições de 2016?

Sim, o de vereadora.

24- Tem algo a dizer para seus eleitores e para as pessoas que a acompanham desde os tempos da MTV?

Sim: não acreditem em tudo que lêem e ouvem, só porque parece convincente ou “combina” com o que você já pensa. Questione sempre, pesquise, confira. Está cada vez mais fácil espalhar mentiras com velocidade vertiginosa; felizmente, também temos na ponta dos dedos ferramentas que nos ajudam a cavocar a superfície e chegar à verdade.

Até o próximo artigo!

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